terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Era uma vez um harpista. Foi num tempo em que já não havia músicos, poetas ou contadores de história, mas esse harpista viveu rodeado de músicos, poetas e até um barão apaixonado. E aconteceu que uma outra dessas raras criaturas que sabiam correr os dedos em instrumentos de cordas fez o harpista apaixonar-se perdidamente, como nos velhos tempos do Rei. Eu os conheci, esses dois loucos. Foi antes de se casarem e mudarem-se para o Reino Distante, num tempo em que as pessoas já não se casavam nem acreditavam em reinos eternos.

Éramos poucos, naquele tempo. Tangíamos nossos instrumentos em palácios de marfim e colhíamos muitas vezes com os primeiros raios de Sol a certeza de que a vida é eterna – por causa do orvalho, por causa das harpas, das bandas de rock que só nós sabíamos. O mundo não podia nos entender.

Foi num tempo em que as pessoas sabiam demais, e de tanto saber já não precisavam viver. Mas meus amigos mágicos eram loucos, e escolheram viver – ele e ela, as mãos enlaçadas, num tempo em que não se usava dar as mãos. E porque essa história é um conto de fadas, eles se casaram na segunda-feira, enquanto as pessoas em preto-e-branco assistiam ao Jornal Nacional.

E de fato partiram para um Reino Distante, onde ainda há barões, cordas, orvalho e bares onde se esperar a noite inteira pelos primeiros raios da manhã, e a ousada afirmação da vida. Eu os conheci, o harpista e sua noiva, que cantava com os dedos. Eles são felizes para sempre, agora.

Fabio Camacho
Uberlândia, 27 de outubro de 2008

(imagem: O Beijo, Gustav Klimt)